Jornalismo · Carreira
Com concorrência que chega a mais de 100 mil inscritos por ciclo e salários acima da média, os programas trainee nunca foram tão disputados. Mas até onde vão as promessas de aceleração de carreira?
Todo ano, quando as temporadas de seleção abrem, o mesmo movimento se repete: milhares de recém-formados atualizam currículo, treinam cases, decoram a história da empresa dos sonhos. No Brasil, mais de 200 empresas abrem vagas de trainee anualmente, com remunerações que chegam a R$ 17 mil por mês, como no programa da Unilever. O processo seletivo é longo, dura em média quatro a cinco meses, passa por testes online, dinâmicas de grupo e entrevistas com os recursos humanos e com lideranças.
A disputa é proporcional ao desejo. Em programas como o da Ambev, já foram registrados mais de três mil candidatos por vaga — concorrência que supera em dezenas de vezes a medicina nas principais universidades públicas do país. Esses processos seguem uma lógica de funil progressivamente restritivo, no qual milhares de candidatos são filtrados até que apenas uma fração mínima, muitas vezes inferior a 1%, seja aprovada.
Bettysa Lobato, 26 anos, é trainee da Rede D'Or e revela que o que mais a motivou foi a oportunidade de alavancagem de carreira em um curto período de tempo. A experiência, ela descreve como intensa: a cada dia, uma unidade hospitalar diferente, a cada rotação, uma nova dimensão do negócio.
"Tenho me surpreendido positivamente. Estou tendo um crescimento profissional e pessoal. Esse conhecimento amplo do setor, da ponta até quem toma decisão, te faz um profissional mais completo."
Bettysa Lobato, trainee Rede D'Or
Hannah Elisa Aguiar, ex-trainee da L'Oréal e formada em Administração pela USP, chegou ao programa vinda de uma vaga de analista júnior na Nestlé. Sua rotação passou pelo comercial, pela marca Elseve e pelo time de marketing internacional da L'Oréal, com foco total na consumidora.
"Foi um 360 do marketing superinteressante. O quanto você é exposto à alta liderança te dá uma carga de pressão e também te obriga a se desenvolver muito rápido. Você entra num mundo novo e já tem que chegar jogando."
Hannah Elisa Aguiar, ex-trainee L'Oréal
Lys Chagas, 29 anos, ex-trainee que hoje ocupa uma posição sênior, recorda a mesma dinâmica: o desafio semanal de se desenvolver, criar e se conectar com pessoas novas. Para ela, o diferencial está também no acolhimento que o programa oferece, com um RH que cuida da carreira dos trainees de forma próxima.
"O trainee virou um filtro de aceleração. Quem entra, entra para performar rápido, assumir projetos relevantes e ser testado em ambientes de alta pressão. Não é mais um programa de aprendizado lento — é quase um mini laboratório de liderança com cobrança de resultado."
Luciano Duarte, especialista em empregabilidade
A narrativa do crescimento acelerado tem nuances que nem sempre aparecem nos materiais de divulgação. Hannah aponta que o cargo de saída do programa varia bastante entre empresas. "O trainee da Nestlé dura dois anos e a pessoa sai coordenadora. Já o da L'Oréal dura um ano e você sai analista sênior. Sair de analista júnior e em um ano virar coordenador é uma responsabilidade para a qual você não consegue ter maturidade suficiente."
Lys confirma que o programa acelerou sua carreira, mas que existe um limite: muitas vezes, o trainee sai como sênior e precisa apresentar resultados por mais alguns meses para chegar ao cargo de liderança. Hannah acrescenta que a prometida "visão 360" depende, na prática, da qualidade e diversidade das rotações. "Cada experiência do trainee é muito única para cada pessoa. Teve gente que amou, teve gente que achou que ia ser mais."
Caio Sakai, 39 anos, mentor de carreira com sete anos de experiência ajudando jovens a ingressarem em programas concorridos, prefere uma leitura mais direta.
"Programa de trainee, como eu gosto de falar com meus mentorados, é um programa de eliminação, não de seleção. Eles não passam na primeira etapa quem são os melhores. Eles cortam quem acham que não tem o perfil."
Caio Sakai, mentor de carreira
Os cortes acontecem em cascata já nas primeiras etapas automatizadas, muito antes de qualquer avaliador humano entrar em cena. Ainda assim, Sakai vê avanços concretos em acessibilidade: vagas reservadas para pessoas pretas e pardas, programas com pegada inclusiva. Mas faz a ressalva — mesmo dentro dessas iniciativas, a concorrência continua brutal. O Brasil tem poucos milhares de vagas de trainee por ano contra quase 1 milhão de vagas de estágio.
Luciano Duarte, que já mentorou mais de 5.500 profissionais nos últimos 12 meses, alerta que o discurso é de democratização, mas o que se observa é diferente. "Quem entende como estruturar currículo para ATS, como se posicionar no LinkedIn e como performar em entrevistas sai muito na frente, mesmo sem experiência. Os próprios sistemas de triagem já eliminam candidatos antes mesmo de um humano avaliar."
O debate sobre o que torna alguém competitivo evoluiu. Sakai lembra que, há apenas seis anos, a ausência de inglês no processo da Ambev foi um acontecimento que chamou atenção no mercado. "Hoje, você vê que nem curso praticamente eles exigem. O comportamental vale mais do que o técnico."
O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que cerca de 39% das competências essenciais no mercado vão mudar até 2030, e que habilidades cognitivas, resiliência, liderança e colaboração continuarão sendo as mais valorizadas. Aproximadamente 50% dos profissionais precisarão passar por algum tipo de requalificação até o fim da década.
"O jogo mudou de 'onde você entrou' para 'o que você consegue provar que faz'."
Luciano Duarte, especialista em empregabilidade
Sakai acrescenta um elemento que costuma pegar candidatos de surpresa: a liderança. "Muita gente pensa 'como posso ter tido algo de liderança se me formei na faculdade?' É aí que entram as oportunidades do mundo acadêmico: empresa júnior, centro acadêmico, bateria universitária. Quem tem isso vai ter um elemento que uma experiência de estágio convencional normalmente não vai ter."
A resposta, por unanimidade entre os especialistas ouvidos, é não. O trainee continua sendo um caminho forte, mas deixou de ser o único. Hoje, existem alternativas que em alguns casos são até mais eficientes: entrar em startups, empresas menores, ou construir portfólio próprio com projetos.
Lys Chagas resume a experiência de quem passou pelo processo: você se conecta com pessoas e culturas diferentes, é preparado para cargos de liderança. Mas é preciso ter clareza de que a alavancagem tem um teto — e que, a partir daí, é você quem constrói o resto.