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Jornalismo · Cultura & Teatro

Os bastidores da retomada: teatro carioca cresce sem a estrutura necessária

Apesar do aumento de público e da diversidade de produções, artistas, produtores e especialistas apontam que o cenário ainda opera com dificuldades de captação, falta de espaços e de formação em gestão.

2025 por Clara Bagrichevsky Autran

Um setor criativo, mas estruturalmente frágil

O Rio de Janeiro lidera o consumo de teatro no país, conforme a pesquisa "Cultura nas Capitais", desenvolvida pela JLeiva Cultura & Esporte em parceria com o Datafolha. O estudo aponta que 32% dos moradores do estado assistiram a uma peça nos últimos 12 meses — percentual acima da média nacional, de 25%. Nos primeiros dez meses de 2025, 178.702 espectadores prestigiaram uma média de 1.692 sessões, evidenciando um salto significativo de 65,6% em comparação ao total de 2023.

O teatro carioca vive um momento de grande atividade criativa. Grupos, companhias e artistas independentes vêm ocupando salas, estreando peças e testando novos formatos. Em um único ano, cerca de 200 mil pessoas assistiram a montagens teatrais, com aproximadamente 50 mil dessas apresentações ocorrendo no Rio de Janeiro. A demanda do público cresceu de forma consistente a partir de 2022 e segue em alta. Mas, ao mesmo tempo, uma série de limitações estruturais continua condicionando o funcionamento do setor.

Em uma cidade que concentra grande parte da produção cultural do país, a cena teatral ainda depende de fatores que não deveriam estar no centro do processo artístico: instabilidade de financiamento, espaços públicos sem manutenção, concentração de incentivos e pouca formação profissional voltada à gestão. Para novos grupos, o esforço de produzir uma peça exige recursos próprios, habilidades administrativas improvisadas e uma dose constante de adaptação.

A atriz Julia Iorio, 23 anos, viveu isso ao remontar A.M.I.G.A.S., texto do ator, diretor, dramaturgo, produtor, escritor e roteirista Duda Ribeiro, seu pai. A peça ficou em cartaz por 4 meses em 2024 porque ela e as colegas Luiza Lewicki e Isabel Castello Branco assumiram integralmente os custos iniciais.

"A gente não tinha patrocínio nenhum. A gente tirou o dinheiro do próprio bolso… nós três investimos igualmente."

Julia Iorio, atriz

A montagem funcionou, encontrou público jovem e se manteve em circulação no eixo Rio–São Paulo, mas revela um ponto repetido entre artistas independentes: quando a captação não acontece, é o artista quem cobre o déficit.

Entre retomada e dificuldades financeiras

O diretor Ernesto Piccolo, 63 anos, que acumula mais de cinco décadas de carreira, vive de perto essa contradição. Por um lado, ele destaca o retorno expressivo da plateia após a pandemia. Por outro, reconhece que as condições de produção não acompanharam esse crescimento.

"As pessoas estavam ávidas para estar nos teatros… teve uma volta muito quente no teatro que perdura até hoje."

Ernesto Piccolo, diretor

"A gente sempre tenta botar em editais, Lei Rouanet, essas coisas, mas a gente não consegue captar, não consegue dinheiro."

Ernesto Piccolo

A dificuldade para captar recursos impede que muitos projetos avancem. Mesmo produções bem avaliadas, com objetivos claros, encontram barreiras ao buscar patrocinadores. As empresas priorizam nomes conhecidos, peças já consolidadas ou montagens com maior visibilidade. Isso reduz as possibilidades de profissionais emergentes e limita a diversidade da oferta.

Ernesto ficou semanas em cartaz no Teatro Vannuci com a peça Por menor de ausência. "Sem patrocínio, é muito difícil você manter o espetáculo, ainda mais com essa falta de mídia", afirma. Com a redução do espaço dedicado à cultura nos jornais, rádio e TV, muitas montagens dependem exclusivamente do alcance orgânico das redes sociais — o que exige novas funções de divulgação que poucos artistas estão preparados para assumir.

Captação concentrada e infraestrutura insuficiente

A produtora e professora Vera Novello, que atua há décadas no setor, reforça que o principal gargalo da produção teatral atual é a captação.

"Você aprova nas leis de incentivo, mas não consegue captar os recursos… as empresas querem visibilidade. E quem dá visibilidade? Um artista famoso, dramaturgo famoso, diretor famoso."

Vera Novello, produtora e professora

Segundo ela, isso cria um funil que impede a renovação da cena. Grupos novos, que dependem justamente desses mecanismos para entrar no circuito, raramente conseguem captar valores que permitam o início da produção. Assim, propostas que passam no mérito artístico ou técnico acabam engavetadas.

Vera também chama atenção para a situação dos teatros públicos. "As políticas públicas precisam garantir os espaços. Os teatros da prefeitura, do estado, da União precisam ter condições de funcionamento." A falta de manutenção compromete desde pequenas apresentações até projetos maiores. "A gente vai perdendo espaços… o Teatro Villa-Lobos pegou fogo e até hoje não foi reconstruído." Sem lugares acessíveis para ensaios, montagens e circulação, a produção fica concentrada em poucas regiões da cidade, em maioria na Zona Sul e Centro.

Um crescimento que não inclui todos

A pesquisadora Julia Zardo, especialista em economia criativa, observa que, apesar das dificuldades, há um crescimento real no volume de produções.

"O teatro tem crescido para caramba… estamos vendo um crescimento enorme de ocupação de palcos."

Julia Zardo, pesquisadora em economia criativa

Para ela, isso mostra que há interesse, público e profissionalização artística, mas o sistema de financiamento ainda não acompanha esse movimento. "As leis de incentivo são muito centralizadas em quem já sabe produzir… é difícil a gente ter novos projetos aprovados."

Zardo também destaca a importância da descentralização recente dos recursos emergenciais. "A descentralização de recursos das leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo foi muito importante porque levou para os municípios um recurso que sempre esteve centralizado." Essas políticas permitiram que coletivos de diferentes regiões pudessem viabilizar projetos que antes não tinham acesso a financiamento público.

A formação que falta ao profissional da economia criativa

Um ponto central levantado por Zardo é a ausência de formação em gestão para artistas e profissionais da economia criativa. "Como sou professora, não podia deixar de dizer que você também precisa de uma formação desse profissional criativo na área de negócios."

Segundo ela, muitos estudantes entram na faculdade de artes cênicas sem preparo para lidar com orçamento, administração e planejamento. "Eles nunca pensaram… quando a pessoa escolhe fazer o curso de artes cênicas, ela pensou em fazer aula de voz, aula de roteiro… menos uma aula de planejamento de negócios." A falta dessa formação compromete a autonomia e dificulta tanto o acesso a editais quanto a consolidação de trajetórias sustentáveis.

Para Zardo, a solução passa por integrar disciplinas de gestão cultural na formação universitária e por ampliar programas públicos e privados que ofereçam cursos técnicos nessa área. Ela cita iniciativas como as da Fundação Roberto Marinho e do Itaú Cultural como exemplos importantes, mas insuficientes para a escala da demanda do setor.

A ausência de palcos e a desigualdade territorial

Zardo também ressalta a importância da infraestrutura de consumo cultural. "A gente precisa de infraestrutura de consumo. Fora da Zona Sul e do Centro, a população não tem onde consumir cultura." A carência de salas nas regiões Norte e Oeste faz com que o teatro permaneça concentrado em poucos bairros, dificultando a democratização do acesso.

Para ela, a sustentabilidade do setor depende não apenas da produção, mas da existência de palcos ativos, distribuídos e em funcionamento contínuo.

"Você não precisa só de um Rock in Rio. Precisa do ano inteiro de pequenos palcos criando novos artistas."

Julia Zardo

Criatividade em alta, estrutura em atraso

Quando analisadas em conjunto, as falas de Ernesto, Vera e Zardo apontam para um setor que cresce em criatividade e público, mas cuja base estrutural não acompanha essa expansão. Existem bons profissionais, projetos tecnicamente bem preparados e demanda do público. Falta previsibilidade na captação, falta manutenção de equipamentos culturais e falta formação adequada para quem quer produzir.

Enquanto isso, muitas produções seguem dependendo de esforços individuais — desde investimentos pessoais até o acúmulo de funções por parte de artistas e produtores. O teatro avança, apesar das condições. Para que esse movimento se consolide, especialistas apontam que será necessário fortalecer políticas públicas contínuas, ampliar mecanismos de entrada para novos artistas, melhorar a distribuição territorial da cultura e oferecer formação que contemple tanto a criação quanto a gestão.

A cena teatral carioca, garantem produtores e atores, tem potência, público e produção. O que falta é uma estrutura compatível com essa vitalidade. Para Ernesto, "o teatro existe porque insiste."