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Fundado em 20 de janeiro de 2018 no Rio de Janeiro, o Karyocas é um time de futebol LGBTQIA+ que surgiu da necessidade de criar um espaço de igual para igual e que sobrevive, até hoje, à base de amor e do próprio bolso dos atletas.
O nome é uma pista. Escrito com K e Y, o Karyocas faz uma referência bem-humorada a um lubrificante famoso — uma brincadeira que diz, antes mesmo do pontapé inicial, que aquele não é um time comum. Fundado em 20 de janeiro de 2018, data que coincide com o aniversário do padroeiro da cidade, São Sebastião, o time nasceu de um grupo de amigos que já jogava junto em outro clube, mas que não se sentia mais representado ali. A saída foi criar o próprio espaço.
"A intenção era ter um reduto bacana para a gente. Um lugar onde as pessoas pudessem ser elas mesmas, jogar descontraído, de igual para igual."
Gustavo Souza, goleiro do Karyocas
O Karyocas faz parte de um movimento que cresceu de forma acelerada no Brasil nos últimos anos. O país hoje tem mais de 80 times de futebol LGBTQIA+ em atividade, espalhados por 19 estados, de acordo com mapeamento do Museu do Futebol. A Ligay Nacional de Futebol, liga que organiza o principal campeonato do segmento no país, saiu de oito equipes em sua primeira edição, em 2017, para 60 times cadastrados em 2025 — tornando-se maior do que as duas principais ligas internacionais do gênero, a britânica GFSN e a internacional IGLFA.
Nos treinos, o Karyocas recebe todo mundo. Homens trans, homens héteros, quem nunca tocou numa bola e quem joga desde criança. Gustavo é a prova disso: entrou no time sem saber jogar.
"Era uma negação. Hoje me considero um bom goleiro — não o melhor, não tenho essa pretensão, mas um bom jogador."
Gustavo Souza
Segundo ele, a porta está aberta a todos que queiram praticar. Nas competições da liga nacional, porém, existe uma restrição: homens héteros não podem jogar. A regra é da própria Ligay, criada com um propósito claro de representatividade.
"Já que é um torneio para provar que gay pode jogar futebol, criamos essa restrição técnica."
André Machado, fundador do BeesCats e idealizador da Ligay
O Karyocas respeita a norma. Alguns atletas que treinam regularmente com o time ficam fora das viagens de competição por conta disso.
O maior desafio do Karyocas hoje não está dentro de campo. "É sobreviver financeiramente", diz Gustavo sem rodeios. O time não tem patrocinador, não paga os atletas e depende dos próprios jogadores para custear viagens e inscrições em campeonatos. Quando há competição fora do Rio, os jogadores tiram do próprio bolso para levar quem não pode pagar.
"A gente tá ali por amor, por carinho, um pelo outro."
Gustavo Souza
A dificuldade não é exclusividade do Karyocas. A reportagem do Lance! sobre times LGBTQIA+ de todo o país mostrou que a lógica é a mesma em quase todos os clubes do segmento: sem patrocínio, cada atleta arca com passagem, inscrição e alimentação. Conquistar atenção corporativa, explica Gustavo, esbarra num problema de visibilidade.
"É difícil chamar a atenção de uma empresa para patrocinar se você não tem uma boa visibilidade. E é difícil ter visibilidade sem patrocínio."
Gustavo Souza
Jogadores do Karyocas já enfrentaram episódios de discriminação em partidas contra times héteros. Xingamentos vindos de trás do gol, a palavra "viado" usada como arma. Para Gustavo, a primeira vez que ouviu isso dentro de campo foi desestruturante. "Eu nunca havia passado por isso. Aquilo naquele momento me desestabilizou muito."
O time tem uma postura clara diante desses episódios: paralisa o jogo, aciona o árbitro e se recusa a continuar. O episódio não é isolado: o Observatório do Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+, em parceria com a CBF, registrou 74 casos de LGBTfobia no futebol brasileiro em 2022 — um aumento de 76% em relação ao ano anterior. Até hoje, nenhum jogador do futebol masculino profissional brasileiro se assumiu publicamente como não heterossexual.
Mesmo parecendo um ambiente seguro, a Ligay não consegue garantir que os jogadores não sofram preconceito. Um atleta do Karyocas sofreu preconceito religioso por usar um turbante durante uma partida. Outro foi chamado de macaco. Com o tempo, Gustavo diz que foi desenvolvendo "casca grossa".
"Te incomoda, mas não te afeta ao ponto de desistir. Pelo contrário — você joga com mais raça ainda, quer fazer mais bonito, quer ser mais interessante. Me fez ficar mais resiliente."
Gustavo Souza
Para Gustavo, o que o Karyocas gera vai além do esporte. O time já arrecadou 60 kg de alimentos em um torneio e doou para uma associação que atende pessoas cegas. Mas o impacto mais difícil de quantificar é o que acontece com quem chega num momento difícil e encontra, ali, um motivo para estar bem.
"De repente uma pessoa que esteja num momento para baixo, num momento de depressão — o time gera nela uma motivação de viver bem, de estar no meio das pessoas, de se sentir incluída, de se sentir viva."
Gustavo Souza
Uma pesquisa de 2018 apontada pelo Coletivo Canarinhos indica que 62,5% dos LGBTQ+ brasileiros já pensaram em suicídio. O campo de futebol, para muitos, sempre foi o lugar de exclusão. O movimento nacional de futebol LGBTQIA+ que o Karyocas integra foi descrito por pesquisadores do INCT do Futebol como "um fenômeno sem precedentes" — um boom que transformou o Brasil na maior potência mundial do segmento, com mais times filiados do que qualquer liga internacional.
Toda semana, em Del Castilho, Zona Norte do Rio, o time Karyocas volta a ocupar um espaço que, por muito tempo, pareceu não pertencer a corpos LGBTQIA+. Entre passes, gols e vínculos, o time transforma o campo em reduto. Não apenas para jogar futebol, mas para existir nele.